Quem sou eu?

Minha convicção é fragmentada, toda vez que digo algo que parece uma regra me arrependo na mesma hora.



Escrito por bravo! às 02h38
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Tchau moço bonito

Descendo do ponto pra casa hoje, uma mina acena pro meu lado. Na dúvida ignorei. Era uma de uns 15 anos no máximo, mas não importa. Daí ela continuou me olhando enquanto eu atravessava uma rua. Ela meio que me chamou, confirmei: "É comigo?". E era. Daí começou a andar do meu lado sem falar nada. Parei, virei pro lado da garota e lancei: "Qual a sua necessidade?". No que ela me diz: "Falar com um moço bonito".

UAU.


Lisonjeado agradeci. Quem é homem sabe, as mulheres não elogiam assim.
Ainda rolou um "tchau moço bonito".

E a vida segue...



Escrito por bravo! às 00h01
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Barulho

Deveria ser igual foi ao Juninho quando fez aquela arte. Ele e o Paulo. A professora olhou para eles e falou “um dia eu vou estar colocando meu lixo para fora e vocês vão estar lá pra recolher, porque é para isso que vocês servem”. E foi dito e feito, ela acabou com a vida deles. Agora hoje em dia, o moleque trafica droga na escola, ofende o mestre, briga, anda armado e nada acontece. Eles foram zoar com o extintor e foram expulsos. A diretora chegou... “se o pai de vocês têm dinheiro pra pagar particular que eu sei que não tem, então tá!”. E eles ficaram vários anos sem entrar em escola, depois voltaram, mas já não podiam acompanhar.

Minha filha fala, “não pode ser assim”. Só que estes moleques não prestam. Ela diz que a laranja podre a gente tem que cuidar, e não jogar fora. De que adianta? Tem logo é que expulsar, não ficar carregando estes trombadinhas na escola.

Terminal Rodoviário do Jabaquara, São Paulo, SP, 10h00 da quinta-feira, 2 de abril de 2009. A gasolina entrou em combustão no motor do ônibus ao giro que motorista deu na chave de ignição. O ruído produzido encobriu a voz. Vi pelo movimento dos lábios que o sujeito continuou com suas palavras dirigidas ao passageiro à sua frente.



Escrito por bravo! às 01h48
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Lembre-se disso



Aguardava na fila do Guarapiranga {Terminal Banheira [Anhangabaú (São Paulo)]} quando o ônibus se posicionou onde devia, porém o motorista levou meio minuto para aprovar a entrada dos passageiros. O que emputeceu o cara da minha frente tanto o quanto era necessário para ele conversar comigo. "O que me fode é o transporte público, não o trabalho, não reclamo de trabalhar, só do transporte!". Respondi com meu arsenal de frases prontas genéricas. "Pode crer", "é foda"... E com as prontas específicas, "Demoro duas horas pra vir", "Muito trânsito", "Muita gente nessa cidade".
 
Não era bem uma conversa, era um emaranhado de frases que poderiam ser ditas para qualquer um. Se no dia seguinte encontrasse com o cara, seria bem capaz de ele se lembrar do meu rosto, mas não fazer idéia do que falei. Curto gente que se lembra das coisas de uma conversa, mas a maioria se esquece. Aqui no trabalho mesmo, já disse milhares de vezes onde moro, como faço para vir e para voltar, que já morei em Bauru, mas constantemente alguém se surpreende, tipo: "Nossa, Vila Formosa é longe para caralho!". "Porra, mermão, você já exclamou isso milhares de vezes", tenho vontade de falar, mas não falo!
 
No terminal o sujeito me disse que tinha moto, só que não virava montar numa e atravessar a cidade porque a onda de assaltos está perigosíssima! O vagabundo - nas palavras dele - vem e bota o cano na cabeça do motoqueiro, e leva a motoca - nas minhas palavras - pro diabo que o parta!!! "Lá no trampo a gente ia de moto, de quatro, só um continua. A gente fala: 'vigia porque tão roubando', mas ele é burro, sabe aqueles bem iNgnorante, nordestino!".
 
Diante disso me calei! Sorte que ele estava na minha frente, esperei que se sentasse e cuidei para ficar afastado o suficiente. Saquei um livro da mochila, li dois parágrafos e dormi.



Escrito por bravo! às 08h45
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A incompreensão do atraso

A tarefa de subir a Rebouças e descer a Consolação dentro de um ônibus num final de tarde qualquer pode realmente deixar um sujeito inquieto. Foi assim com um cara que viajava ao meu lado, sentados na última fileira de poltronas dentro da condução que tinha como destino final o terminal Princesa Isabel, na Avenida Rio Branco.

Pelo celular ele ligava a cobrar, aparentemente para um amigo. Isso por volta das 18h e 30min. Pedia que a pessoa informasse e justificasse o atraso que ele previa sofrer:

- Meu, tô aqui parado na consolação! Não chego às 7 nem fodendo. - Disse o homem a seu telefone móvel da marca LG, modelo slider, com câmera acoplada, mas evidentemente sem créditos para bancar uma ligação.

Só que o camarada dele parecia não querer colaborar. O que o fez aumentar o tom de voz, tentando atingir o grau certo que demonstrasse braveza, mas despertasse a piedade do amigo. Não conseguiu. O que podia fazer era arriscar uma ligação a cobrar para o patrão. A voz se encheu de humildade durante a explicação na qual descreveu com detalhes o trânsito apertado que enfrentávamos. A fala dele foi interrompida no meio de uma palavra o que deu a entender que a pessoa com quem mantinha aquela conversa desligara ofone brutalmente. O sujeito, que usava roupas informais e segurava uma maleta demonstrou sua ferida ao desabafar com uma senhora que ia ao seu lado:

- Pô, o cara quer quer eu faça o que? O que eu tinha que fazer foi feito: liguei avisando. Camarada incompreensível, e justo no meu primeiro dia de turno.

Turno de que nem eu nem a mulher ficamos sabendo.

Escrito por bravo! às 23h24
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(Parênteses sobre Tropa de Elite)

Abri o Word para escrever uma resenha sobre o show do Hot Chip no Tim Festival e acabei primeiro com este texto dando tapa na cara do filme “Tropa de Elite”.

Comentei hoje cedo (com 50 minutos de atraso) que o filme era uma grande farsa.

“Ah, fala sério?”, “Você não gostou?”, “É um filme bem feito!”.

Daí tive que entrar no clima e dar uns pontos pra parte do filme que mostra o sistema dentro da P.M. Foi realmente o episódio que mais gostei. Construíram uma trama bem interligada: legal!

Mas e daí? O filme nem era sobre isso. Senti que é sobre a superioridade do B.O.P.E em relação às outras polícias e que age como age porque é a única maneira de lidar com o “morro” (entidade imaginária com poderes maléficos). O filme apela tanto que o único ser capaz de fazer bondade na favela foi o aspirante (a capitão do B.O.P.E, e não um cheirador de cocaína) André Matias quando percebe a semi-cegueira de uma garoto pobre e lhe providencia óculos.

. . .

O filme é tendencioso, não traz novidades (ó, quem consome drogas financia o tráfico!), tem uma trilha sonora péssima (a melhor música é o Funk do baile), elege um carnificeiro como herói. Quanto a isso, o diretor José Padilha comentou em entrevistas que não esperava toda a identificação que a sociedade teve com o Capitão Nascimento. Oras, que fizesse o filme direito então. O cara é o herói da narrativa. Só ele tem família, passa pro problemas de stress. Um dos únicos ali a ter pontos positivos e negativos (um ser humano é assim), e os negativos, ainda assim, são amenizados pela dura realidade que ele tem – faz o que há para ser feito. Depois não era pra ser visto como herói?

É engraçado como o “Rap das Armas” fez tanto sucesso quanto o B.O.P.E. E são representações rivais. É que na verdade, quem assiste ao filme quer é polêmica. Uma dose de violência fascina.

Escrito por bravo! às 10h49
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Sexta-feira qualquer



Droga. Sexta-feira. E a da noite, depois do dia enfurnado num trabalho tedioso, era apenas ir direto pra casa. Nem tão direto porque é preciso duas conduções pra conseguir vencer o imenso caminho cheio de trânsito provocado por pessoas tensas, nervosas, e principalmente, bêbadas.

A certo ponto comecei a torcer por algo mais empolgante. Olhava para os lados de dentro do ônibus. Os olhos corriam querendo um lugar pra ficar. Todo mundo parecia se divertir nos botecos. Não poderia deixar de ser assim em lugares onde uma dose de pinga custa menos que a ficha pra uma música no karaokê. O ônibus percorria o Brás na direção do metrô Belém, lá eu saltaria pra pegar mais um ônibus até em casa. Eu vinha sentado na janelinha de olho naquela região perturbadora. Imagine o centro de São Paulo com tudo o que há de ruim sem a parte que há de boa, assim é o Brás. Um lugar para pessoas de verdade.

**

Meu segundo ônibus já estava lá. Eu não quis entrar logo de cara. Fiquei do lado de fora pensando em algo pra fazer. Não podia querer contar com a sorte pra me trazer uma coisa melhor pra noite. Procurei os nomes na agenda do celular, mas pra quem eu poderia ligar? Nomes, nomes e nomes, só nomes. O motorista deu a partida e eu subi pra não perder a vez.

Sentei e não tive nem ânimo pra pegar na mochila o livro que estou lendo. Com tanta gente lendo Zíbia Gasparetto dos lados não dá nem vontade de ler algo que realmente valha a pena. Fiquei lá ouvindo um sonzinho e pensando no que poderia fazer. Quase desci no ponto do shopping, lá enche de moleques que não tem o que fazer, todos uns 7, 8 anos mais novos que eu. Mas que diabos, o que eu ficaria fazendo ali?

O jeito seria mesmo descer alguns pontos mais adiante, passar na vídeo locadora e levar um filme pra casa. Porra, e eu sabia que não ia encontrar nada de tão estimulante para assistir, só que precisava de um mínimo de mudança no caminho. Pra não dizer que não aconteceu nada, o motorista do ônibus parou na calçada de um posto de gasolina, saiu do carro com um regador de plantas na mão, foi até uma torneira e carregou com água. Depois despejou tudo em algum lugar na frente do ônibus. Um passageiro desesperado fez a pergunta, "O ônibus quebrou?". Se quebrou, três litros de água foram o bastante pra restabelecer a coisa toda.

Fora do ônibus já no caminho para a locadora, havia até que bastante gente na rua. Principalmente nos bares, entornando uma atrás da outra. Segui andando. Atravessei uma rua, depois outra, dobrei uma esquina e pronto.

Olhei filme por filme na parte de lançamentos. Nada de muito especial. Parti logo pra área de filmes mais velhos, que eles chamam de "catálogo". "Amor não sei o quê", "Fulaninho encontra não sei o que lá", "Tempos de qualquer coisa", e por aí a fora. Fui pro balcão segurando "Virgens suicidas". Fazer o que, né? A locação de filmes em catálogo é metade do preço.

Casa, comida, banho. Daí fui ver o filme. Historinha, historinha, historinha. Até que... PAC! O DVD travou no meio de uma cena qualquer. Já era tarde, a vídeo locadora fecha às 22h. E mesmo se ainda desse tempo, eles não trocam mais o filme. Quando você vai pegar o DVD a filha da puta da atendente faz você olhar o disco e decidir ali na hora se vai querer mesmo levar pra casa ou se prefere trocar por outro. Como se fosse possível saber se o filme rodaria ou não.

Escrito por bravo! às 16h31
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Trombada

7 Jun(18 horas atrás)
O motorista da lotação arrancou o retrovisor de um carro hoje à noite, já aqui na Vila Formosa. A lotação parou, a mulher com seu carro com a lateral arrasada também, e um outro cara resolveu participar, acho que ele queria defender a mulher e ver se conseguia uma trepada de véspera de feriado com ela, talvez tenha conseguido.

Os três motoristas ficaram discutindo lá fora e os passageiros lá dentro. Na rua, eles trocaram papeizinhos... O motorista deve ter dado algum contato para a mulher conseguir a grana e não tomar no cu sozinha com o prejuízo. O outro motorista entregou um papelzinho pra mulher. Devia ser o endereço e o número do quarto de um motel.

Pra finalizar, a mulher sacou o seu motorola V3 e tirou algumas fotos da perua. Considerando a qualidade sub-VGA da câmera digital daquele celular, a falta noturna de luz e a distância a que ela se colocou, pela foto não vai dar pra ver nada: nem a lotação nem o aceno que fiz de lá de dentro.

Escrito por bravo! às 18h20
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A menor distância entre dois pontos é uma moto

A menor distância entre dois pontos é uma moto

Todos os dias vejo um motoqueiro caído no chão envolvido em algum tipo de acidente. É tenebroso isso. Certa vez, de dentro da lotação, vi por cima dos ombros dos demais passageiros, uma moto e seu piloto sendo esmagados entre um ônibus e um carro. Muita gente buzinou enfurecida com a lentidão com que as coisas estavam se resolvendo. É que na verdade, não estavam.

O motoqueiro permaneceu ali caído. Não ouvi sirenes nem nenhum uniforme oficial. Quando um outro cara passou de moto e viu a cena, saltou no meio da rua, empurrou a moto do acidentado para perto da calçada e depois tentou remover a pessoa também. O acidentado estava consciente, mas suficientemente ferido para não conseguir andar. O fato de ele não estar sangrando deve ter contribuído para a multidão demonstrar mais ações de fúria do que de compaixão. Todo mundo anda uma pilha de nervos.

Dentro na lotação uma mulher defendia timidamente o motoqueiro, mas o motorista acusou-o como o responsável.

"Eles são doidos, não têm respeito". De fato ele tem alguma razão, ainda mais depois que "eles" descobriram aquela buzininha ardida. Saem buzinando entre as faixas como se aquilo fosse um escudo que protege contra fechadas dos automóveis. Aquela buzininha dá muita confiança para eles.

A mulher retribuiu num tom muito mais calmo que o do motorista dizendo que havia sim, alguns que eram responsáveis, tendo ela o próprio filho como exemplo disso. O filho dela tinha comprado a moto para poder trabalhar em dias em que o carro estava proibido pelo rodízio. Só que ele percebeu muita agilidade e ganho de tempo utilizando a moto, então passou a trabalhar todos os dias sobre duas rodas.

Mas a lógica da motocicleta conspira contra seus pilotos. Ela só tem duas rodas e não se equilibra sozinha. Quem anda trava uma batalha eterna contra a gravidade que um dia acaba vencendo.



Escrito por bravo! às 10h24
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Incógnitas

Duas meninas conversando no ônibus:

"Se os dois fatores forem quantitativos, x e y podem ser iguais, e se não forem, se aproximam. Mas se um for qualitativo, eles não serão iguais nunca, entendeu?"

Eu ouvindo isso e pensando: "que coisa louca". Elas discutindo o "x" e o "y" aqui nesse ônibus. Esses símbolos parecem tão importantes na ciência exata. São as incógnitas que fazem o mundo girar, os carros andarem, a luzinha que sinaliza ao motorista se deve ou não parar no ponto acender.

As duas meninas, com partes da roupa num rosa vibrante, passaram o assunto pra frente. Entraram no mundo particular que envolvia garotos, festas em Alpha Ville, celular e bebida. Será que elas vão usar o "x" e o "y" pra construir algo um dia? Essas letrinhas darão uma boa grana a elas? Pra mim, nunca renderam nada...

Eu que ali me transportava para o trabalho num ambiente em que só me envolvo com essas letras se aparecerem bem no meio de uma palavra. E essas palavras não fazem nada acontecer.

Trabalho em um site que vende produtos e movimenta bastante dinheiro. Ouço falar muito em metas aqui. 1 milhão e duzentos para esse mês, o que não me afeta em nada mesmo. Somos eu e um colega nesta minha função de redatores. A gente escreve umas baboseiras sobre qualquer produto, alguém coloca uma foto e pronto. Nunca vemos as TVs de plasma, câmeras digitais, fogões ou geladeiras duplex de aço inox (preço R$6 mil) sobre as quais falamos. Também não chegamos nem perto de dinheiro ou de consumidores afoitos por uma promoção de "frete gratuito". O que se movimenta aqui são os números na planilha do Excel - que eu odeio muito. Talvez nela haja muitos "Xx" e "Yy".



Escrito por bravo! às 23h36
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Hoje eu vi Joseph Ratzinger

Primeiro veio um helicóptero. Provavelmente da Globo que está perseguindo o Ilmo. Sr. Bento desde que ele chegou no país - ainda antes de o avião pousar, quando ele entrou em águas brasileiras saiu a notícia: Papa Bento em território nacional. Muitas motos com policiais militares encabeçavam o comboio em terra. Vinham da Rebouças pela contra-mão do corredor de ônibus, e ainda cruzaram a Faria Lima com o farol vermelho.

A frota da PM está toda na rua hoje. Deve ter até uns falsos policiais! Uns emprestados de outros estados. Uns seguranças fazendo freelance. Muitos guardas mesmo, fora a frota civil. E qual não foi meu espanto pela manhã ao ver o exército nas ruas do centro. Sempre em duplinhas, sempre um com fuzil (não faço idéia do que seja um fuzil) e outro com mochila e aparelhos estranhos.

Subindo a consolação, na entrada do cemitério, uma aglomeração de soldados. Tipo um quartel improvisado num daqueles caminhões de guerra. Por que o exército usa roupa de camuflar na floresta e carros off-road na cidade? Eles descarregavam várias armas e outros pacotes.

Na carreata, o exército vinha no final, de caminhão. Antes das duas ambulâncias e das motos policiais que eram uma espécie de ponto-final. A Mercedes prata que transportava o Sr. Bento vinha entre dois carros cor chumbo - talvez com outras autoridades e a equipe tática de segurança: o FBI brasileiro. Daqui do 15º andar, eu vi o manto vermelho sobre a roupa branca do Sr. B. que estava sentado perto da janela direita no banco traseiro sem cinto. Corredor de ônibus, contra-mão, farol vermelho, sem cinto; prendam esse homem.

Pude vê-lo nesses trajes por uns 20 segundos. Imaginei que algum bom atirador, dispararia uma bala certeira daqui de cima. Mas aí, me lembrei do que um homem comentou hoje com o motorista do ônibus. O sujeito disse que os pneus eram de borracha maciça e, segundo os cálculos dele, com a quantia que foi gasta para blindar a tal Mercedes daria pra comprar uns cinco ônibus daquele em que estávamos - por coincidência, da mesma montadora.

Escrito por bravo! às 15h17
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Across the Universe

As coincidências são estranhas e deixam a gente desestabilizados. Hoje foi assim comigo. Aconteceu lá pelas 18h 30 min, quando meu irmão Raul chegou em casa voltando das aulas diárias de música que ele dá. Eu já estava aqui no computador, ele chegou e sentou na frente do outro PC. Conversamos pouco sobre qualquer coisa. Depois de um tempo quietos, comecei a assobiar, sem nem perceber, sem pensar na música. O Raul se espantou de leve, desfez a corcunda e me olhou:

- Que música é essa que você tá assobiando?

Ao invés de responder eu continuei, meio inseguro, imaginando que com mais algumas notas sopradas ele fosse matar o qüizz. Na verdade, não havia dúvida sobre a música. O espanto dele era por outro motivo. A coincidência: o Raul tinha acabado de botar na lista de downloads do soulseek a música Across the Universe. Ele quis se assegurar e perguntou se eu tinha ouvido a música recentemente. Não tinha!

Passei meu dia ouvindo e baixando e ouvindo a música baixada. Nenhuma dos Beatles, nem nada.. Por que meu cérebro, ligado no automático, resolveu tomar todas as providências pra que eu assobiasse justo essa? Nem sei há quanto tempo eu não ouvia a música. Mas também, fiquei com essa da coincidência na espinha porque outras duas menores me ocorreram ontem em tempos próximos, mas “Across the Universe” foi a mais marcante.



Escrito por bravo! às 11h05
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O cruzamento entre a Ipiranga e Av. São João não seria mais especial que esquina da rua Gomes com a Av. Sapopemba se não fosse a escolha de Caetano Veloso. Depois da música, a placa com os nomes das ruas deve ter se tornado a sinalização de trânsito mais fotografada do Brasil. Outra influência da composição ocorreu em uma das quatro quinas desse cruzamento. Um video bingo desses que tomaram conta da cidade foi inaugurado com nome Sampa.


Caetano Veloso é homenageado em nome de rua por uma travessa sem asfalto e sem saída em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. É uma região verde e sem video bingos.




Escrito por bravo! às 08h15
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Medicamentos da cidade louca

Na Zona Leste dá para alugar uma casa de um dormitório com 40 metros quadrados de área construída por 220 reais ao mês. Mais 2780 custa o aluguel de um apartamento de 4 dormitórios, sendo 3 suites, na mesma região de São Paulo. Um relógio especial, cheio de mecanismos que envolvem bolinhas de chumbo e rampas de madeira custa quase 800 reais no shopping Higienópolis (que significa cidade da higiene), Zona Oeste. Qualquer morador de São Paulo sabe que pode comprar algo para marcar o tempo por 5 reais, tanto nos bairros como no centro.

Em São Paulo, gente compra guarda-chuva barato, outros importam da Europa. Alguns andam com seus i-pods pendurados no pescoço e fones de ouvidos brancos, mas há quem prefira gastar menos e ter um mp3 player genérico. Eles compram os fones brancos depois em alguma barraquinha e quem tem o i-pod original compra fones pretos para não dar na cara que o aparelho que carregam é caro. Celulares tiram fotos de todos os lugares, servem de video-game, gravam voz e fazem pequenos filmes; mas nem sempre servem para ligação. Gastar mais de 1000 reais em um aparelho não significa ter dinheiro para carregá-lo com crédito.

Na cidade, quando chove forte falta água encanada para algumas regiões. Em dias de enxurrada, o boeiro joga a água para a rua.

Um semáforo foi instalado para regular o retorno ilegal que alguns motoristas faziam numa avenida que liga o bairro do Aricanduva e São Mateus, na Zona Leste. Perto da USP-Leste, um farol impede que dois carros batam de frente um com o outro num túnel bem estreito; não dá para ir ao mesmo tempo que alguém volta.

São Paulo deve ser a única cidade em que um médico morto receita remédios. O dr. Mamede, responsável pelo meu parto natural e pela cesariana dos meus irmãos, morreu em setembro de 2006 mas continua medicando minha mãe. Ela leva os frasquinhos vazios e troca por cheios em uma farmácia de manipulação. E o nome do médico vem estampado no rótulo.

Ele fumava e provavelmente não se alimentava bem, deixava o cabelo um pouco comprido e usava bigode eventualmente. Teve o primeiro infarto em 1987, pouco depois de trazer meus irmãos gêmeos para fora. Meu pai se lembra que o cara saiu todo suado da sala de partos, deve ter sido difícil. “Seus filhos me enfartaram”, brincava o doutor já depois de recuperado do primeiro ataque cardíaco. Minha mãe, que diz ter perdido o único médico que a entendia, adivinhou a causa da morte quando ligou no consultório para esclarecer uma dúvida. “Foi do coração”, ela suspirou ao telefone pouco antes de começar a chorar muito.

Eu conheci o dr. há dois ou três anos. Fui ao ao consultório com minha mãe para ela não se perder sozinha. Não foi emoção nenhuma conhecer o homem, que parecia ser legal de mais para um médico. Para chegar até ele, pegamos o ônibus Jaçanã para ir até a Vila Maria, bairro médio, com aluguéis não muito caros. Para atender lá, Mamede devia pagar por volta de 800 reais por uma casa velha que teve seu interior bem reformado.

http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=27177596&tid=2518159821230210665&na=4



Escrito por bravo! às 23h41
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Nanotecnologia européia

A chuva fina em São Paulo não molha mais. São tantos os toldos e telhados cobrindo calçadas que é preciso esforço para se encharcar a valer em uma simples chuva fina. Queria alguém disposto a fazer uma experiência por mim. Precisaria medir a quantidade de água que cai sobre a cabeça de alguém indo na rua e comparar com quem foi pela calçada. Andar na rua molha bem mais.

Ainda assim, o que aparece de gente te oferecendo guarda-chuvas a preço baixo em dias de garoa. Não sei de onde eles tiram os guarda-chuvas e as capas protetoras. É de repente, começa a chover e os vendedores sacam de seus lugares mais secretos os objetos que servem para manter secas as pessoas que não gostam de andar de toldo em toldo. Não tomar chuva em São Paulo custa de 3 a 5 reais.

Nem todos precisam pagar tão pouco. Um passageiro na lotação comentava sobre o tempo com uma mulher sentada ao seu lado – o velho assunto para se iniciar um diálogo: o clima.

- Esse meu guarda-chuva não é de marreta, mas custou um pouco caro – começou o homem.

- Ah é, quanto você pagou? Quis saber a mulher que lutava para fechar a janela da lotação linha Metrô Tatuapé / Jd. Santa Isabel, estava chovendo e ela não gostava de se molhar, apesar de odiar muito o abafado que fica no ambiente sem circulação de ar.

- “Aqui” eu não sei. Esse aqui custou 20 euros “lá”, é de fibra de carbono – sobre o guarda-chuva novamente.

- Ah, você comprou “lá”?

Eles estavam sentados na dupla de poltronas atrás de mim. Virei um pouco a cabeça tentando me posicionar para ouvir melhor o resto da conversa. Em poucos minutos o homem contou que era Engenheiro, está com 51 anos e há 3 décadas morou por 3 anos na Alemanha. Já voltou para a Europa com um amigo, foi quando conheceu a cidade natal de sua avó por parte de pai, na Itália. Com a família pela parte da mãe, ele ainda mantém contato. Já se hospedou na casa deles quando foi com sua mulher e seus dois filhos para uma outra parte da Itália em uma outra ocasião. Os parentes também já se acomodaram na casa dele quando estiveram no Brasil.

A mulher nunca saiu do país, mas morre de vontade. Seu irmão mora na Espanha há um ano. Ele ligou recentemente pra dizer que não pretende voltar. Ela está tirando sua cidadania Italiana e sabia citar o nome de inúmeras cidades e os posicionamentos geográficos dentro do país-bota.

- Lá é outro mundo. Disse a mulher.

- É, eu fiquei impressionado quando fui pela primeira vez. Os automóveis, na época, os de lá eram muito mais evoluídos, é a nano-tecnologia, que eles dizem. São micro-partículas, dá pra fazer tudo. Estão fazendo roupa assim também. Esse guarda-chuva seca em 10 minutos.

Quanto tempo será que leva para secar um guarda-chuva de 5 reais?



Escrito por bravo! às 21h11
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